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Romance forense: "A mulher do padre"

Conhecida, na pequena cidade da região metropolitana de Porto Alegre, por algumas pessoas, como "a mulher do padre", a serviçal sexagenária - demitida de todas as suas funções na igreja local - foi a Juízo em busca do que chamava de "seus direitos". Relatou que fora contratada como empregada doméstica da residência do religioso, mas que, com o passar do tempo, "ele acedeu aos apelos naturais da carne".

O juiz da causa não poupou palavrórios numa sentença de 44 laudas, de improcedência da ação: "não há prova do concubinato, embora o padre seja um homem de comportamento ético duvidoso, que pecou ao, no depoimento, atingir a honra dela, acusando-a injustamente por dois furtos não comprovados".

O processo subiu ao TJ gaúcho, para exame da apelação da "mulher do padre", aliás, "empregada do padre". Para que a ação tivesse a confirmação da sentença de improcedência, uma das duas Câmaras Cíveis que julgam causas de família levou em consideração quatro aspectos:

1. A diferença de mais de 30 anos de idade que separa ambos; 2. O desnível cultural, econômico e profissional; 3. O padre sempre teve um comportamento pessoal, social e profissional sem qualquer arranhão ou mácula - tanto que recebeu do Papa a dignidade de "prelado de honra". 4. A inexistência de prova testemunhal que confirmasse que as relações tenha sido "de cama e mesa".

Das dez testemunhas, oito jamais viram e também sequer ouviram qualquer notícia a respeito de possível relacionamento íntimo. Uma delas explicou que a expressão "a mulher do padre" era usada, só jocosamente, para identificar a pessoa que trabalhara, durante 15 anos, cuidando a casa paroquial, onde também morava.

O colegiado dedicou ao religioso uma frase enternecedora: "não se pode atacar a honra e a dignidade de uma pessoa com mais de 90 anos - e que não teve qualquer arranhão em sua longa vida - e que deve receber apenas compreensão, tolerância e perdão".

Para a autora da ação, o acórdão trouxe um recado: a ação fora "uma aventura processual, uma sanha da mulher em tentar desmoralizar o religioso, além de buscar algum dinheiro". O aresto, utilizando um pensamento bíblico de Eclesiastes (7,7) afirma que "a opressão faz endoidecer até o sábio".

"O ordinário se presume e o extraordinário reclama prova" - explicou, professoralmente, o relator. O fato normal é que o padre e a autora da ação mantiveram um relacionamento cordial, solidário, atencioso e até afetuoso. O excepcional seria o relacionamento íntimo.

E numa frase insinuante, os três desembargadores observaram que "não há homem justo sobre a terra que só faça bem e nunca peque" (Eclesiastes - 7, 20).

Baixados os autos à vara de origem - depois de novos recursos processuais igualmente inexitosos - recentemente o padre faleceu. A agora já septuagenária doméstica - tem dito às vizinhas que "perdeu a fé em Deus e a crença na justiça dos homens".

Por isso, ela deixou de ir à missa dominical, onde sempre comungava.

A alma do padre está no reino dos céus. (Do site "Espaço Vital").

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